Crise: oportunidade para se reinventar

É tempo de mudanças, de se reinventar e se rever enquanto pessoa. O mundo está diferente, o cotidiano não é mais o mesmo, as interações humanas estão limitadas a distanciamentos e meios tecnológicos. Mas esse cenário não durará para sempre, quem aproveitar este momento para cuidar de si, se aprimorar, trabalhar, desenvolver competências estará na frente nesta corrida por soluções. No entanto, segue válida e indispensável a lição que é aquela que devemos cuidar de nosso bem maior: nossa inteligência.

Para isto, alguns pontos são muito importantes para se prestar atenção:

1 . Somos uma existência encarnada (somos também corpo, biologia). Ou seja, possuímos um sistema orgânico que exige cuidados específicos. Nosso corpo informa constantemente aquilo que precisa para se revitalizar, mas para atender as suas exigências é necessário que relativizemos nossas preferências pessoais sobre o que gostamos ou não gostamos. Desse modo podemos manter um equilíbrio e bem-estar, ou então pagaremos em stress, em falta de energia, em baixa imunidade, em doenças. Substancialmente, nosso corpo possui uma lógica de base, necessitando de determinados nutrientes, exercícios físicos para se manter bem, com saúde e energia;

2. Fomos formatados ao longo da nossa história. Cada um de nós aprendeu desde a infância (com as nossas relações de referência) modos de se comportar, de pensar, de tomar decisões, de se relacionar com os outros e com a vida. Antes alguns desses modos eram funcionais e tinham utilidade (garantiam algum benefício nos ambientes de convívio), porém esses modelos foram se cristalizando até se tornarem automáticos e não condizentes mais com a nossa atualidade. Por isso, mesmo hoje existe a tendência de reagirmos às situações cotidianas do mesmo jeito que aprendemos no passado, não nos permitindo a novidade e o fluir da criatividade diante de cada nova circunstância. A vida se dá no instante a instante, sem regras absolutas, cada momento exige uma solução nova e vencedora. Por exemplo, em nosso ambiente de trabalho já estamos acostumados com sistemas preestabelecidos, modelos a seguir, como o horário para cumprir, regras para conviver, rotinas padronizados, etc. Entretanto, neste momento, muitos precisam criar o próprio espaço produtivo dentro de suas casas ou com horários alternativos, exigindo novos hábitos que propiciem a produtividade, a alegria e a profundidade. Um novo momento exige uma lógica nova para se conduzir o dia. Quem trabalha em casa, por exemplo, precisa cuidar com a limpeza, organização, estética, seja do ambiente ou de si. Trabalhar em casa não é igual a estar de férias, por isso é importante cultivar dentro uma atitude de produtividade. Trabalhar com horários flexíveis funciona com qualidade quando somos organizados, responsáveis e criativos;

3. Saber negociar. Em nossas vidas precisamos constantemente negociar e renegociar com os ambientes e as pessoas que de algum modo fazem parte de nossos projetos. Em casa, com minha família, preciso negociar momentos e espaços privados para realizar meu trabalho; na empresa preciso negociar projetos; com os meus colegas preciso negociar a organização das atividades e assim por diante. As pessoas fazem parte da minha vida, não há realização de projetos sem pessoas que compartilham, apoiem, comprem também minha ideia. Saber fazer os outros me ajudarem é uma questão de estar disponível a ir ao mundo do outro, a entendê-lo, construindo uma relação de ganho para ambos;


4. Há um dispositivo interno que nos coloca a repetir. Como já salientado, existe sempre a tendência de sermos repetitivos, fazer as coisas do mesmo jeito que sempre fizemos, ainda que pagando com resultados inferiores por causa disso. Por isto, se queremos manter uma atitude mental realizadora é fundamental cultivarmos o hábito de estar sempre com a mente atenta, que capte a cada instante se estamos dentro ou fora do jogo. Sugere-se cuidar de si em cada relação, no impacto com cada ambiente, com cada objeto, porque tudo informa, tudo provoca uma reação, e estas reações nem sempre são estímulos para nossa inteligência. Por exemplo, a pessoa está trabalhando e de repente vê na rede social uma foto sua do passado, com amigos ou pessoas que já foram mais íntimos e hoje se encontram distantes. Se não tiver atenção você se aprisiona naquele momento, começa a sentir nostalgia, relembrar aquele período (ainda que de modo inconsciente), e logo depois perde a intensidade, a força e já não consegue produzir no aqui e agora, porque a mente voltou no tempo e ficou presa;

5. Cuidado com a idealização. Possuímos e compartilhamos crenças, regras, princípios e ideologias, que neste momento de crise se potencializam, principalmente através dos telejornais, redes sociais, questões políticas, etc. Estas ideologias tentam ditar regras de como as coisas deveriam funcionar, criando em nossas mentes a falsa impressão de que já sabemos tudo e de que aquilo que os outros pensam e opinam está errado e não precisa ser levado em conta. Com isso, não deixamos espaço mental para as novidades;

6. Somos ladrões do nosso próprio tempo. É necessário evidenciar o que rouba meu tempo neste momento (quais comportamentos, pensamentos, modos de viver que geram procrastinação). Hoje existe uma gama muito intensa de informações e os meios tecnológicos, as mídias sociais são os principais gatilhos para a procrastinação, pois acabamos perdendo minutos e até horas nas redes sociais, assistindo vídeos, jogando em aplicativos, etc. Deve-se prestar muito atenção e evidenciar quais são as atividades mais essenciais neste momento, que mais geram produtividade e evolução, e a partir daí doutrinar a vontade para fazer o que deve ser feito. Dica prática: sem uma lista diária de atividades essenciais é difícil gerenciar o tempo de modo adequado;

7. Comparações desnecessárias com a realidade dos outros. Tendemos a construir juízos equivocados de algumas situações, comparando e olhando a vida de um, o país de outro e assim por diante. Deve-se parar e se perguntar: o que é útil e funcional para mim aqui e agora? Cada pessoa é única e vive uma circunstância histórica própria. Observar o outro pode ser no máximo um estímulo para eu fazer mais, mas nunca medida de comparação para a autoavaliação;

8. Existe dentro de cada pessoa uma pulsão de sobrevivência e evolução. Dentro de cada um de nós existe uma pulsão querendo ser historicizada, dizendo o que a vida precisa naquele momento, se precisa saciar a sede, a fome, ou então um tipo de anseio de crescimento existencial, um tipo de prazer, de tarefa, de ação para melhorar o ambiente em que se encontra. A vida nos diz constantemente o que é melhor para nós, basta ouvi-la e segui-la;

9. É uma oportunidade de fazer. Temos diante de nós uma oportunidade de realizar novas experiências, de colocar em ação projetos planejados e não executados. É o momento de parar e verificar qual a oportunidade que esta situação está oferecendo, e diante disso tomar decisões, planejar, construir uma nova existência. Com a crise há também a oportunidade de renascer, criar modos novos e mais inteligentes de viver;

10. O ser humano veio para se realizar, para ser feliz. A vida nos deu a chance de construir uma existência de realização como indivíduo, como pessoa e como sociedade. Por isso, o ser humano precisa de prazeresgenuínos que dão revitalização, expansão de consciência, novidade para si, mais dignidade e com isso um maior sentido de viver. Pequenos detalhes como um aroma que perfuma a casa, uma planta que decore a mesa, um tipo de tecido que refresca a pele, ou uma atividade de lazer evolutivo, por si só já podem gerar alegria, maravilhamento e vontade de fazer mais. É fundamental diante das dificuldades aprender a construir prazeres que aprimorem a condição da própria alma e da existência.

A vida é bela e repleta de oportunidades. Todos os momentos que passamos, sejam eles difíceis ou não, são janelas para se construir um novo olhar para o mundo e para si mesmo. A nossa inteligência é genuína, capaz de enfrentar qualquer adversidade, transformando cada situação em fonte de expansão da própria vida. Podemos renascer e sair melhor de cada nova problemática, bastando para isto o cultivo diário de colher no próprio íntimo o que deve ser feito e o que precisa ser permitido a nascer.

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